O Lucro Presumido é o regime tributário de milhões de empresas brasileiras que faturam até R$ 78 milhões por ano. É o meio-termo entre o Simples Nacional e o Lucro Real: menos burocrático que este, mas sem os limites de faturamento e as alíquotas reduzidas daquele. Justamente por ocupar essa posição intermediária, essas empresas serão profundamente afetadas pela substituição do PIS, Cofins, ICMS e ISS pelo novo modelo de IBS e CBS.
A pergunta que todo empresário do Lucro Presumido faz é direta: vou pagar mais ou menos imposto depois de 2026? A resposta honesta é "depende do setor e da estrutura de custos da sua empresa". E é exatamente isso que as simulações a seguir demonstram, com números concretos.
Por que o Lucro Presumido merece atenção especial
No modelo atual, empresas do Lucro Presumido pagam PIS e Cofins pelo regime cumulativo — ou seja, com alíquota reduzida (3,65% no total), mas sem direito a créditos sobre suas compras. Além disso, recolhem ICMS (comércio e indústria) ou ISS (serviços) conforme a atividade.
Com a reforma, o IBS e a CBS funcionam pelo princípio da não cumulatividade plena: a empresa credita-se de praticamente tudo que compra e paga imposto apenas sobre o valor que agregou. A alíquota-padrão estimada gira em torno de 26,5%, bem superior à soma atual de PIS/Cofins cumulativos — mas com o crédito amplo, o resultado final varia enormemente entre setores.
Como explicamos em O que é a CBS e quais as diferenças em relação ao PIS e à Cofins, o segredo está em quanto de crédito cada empresa consegue aproveitar.
Simulação 1: Empresa de serviços (consultoria)
Empresas de serviços tendem a ser as mais impactadas negativamente, porque têm poucos insumos para gerar crédito — seu principal custo é a mão de obra, que não gera crédito de IBS/CBS.
Dados da empresa:
- Faturamento mensal: R$ 200.000
- Custos com insumos que geram crédito: R$ 20.000 (10% do faturamento)
- Folha de pagamento: R$ 90.000 (não gera crédito)
Modelo atual:
| Tributo | Base | Valor |
|---|---|---|
| PIS/Cofins (cumulativo) | R$ 200.000 × 3,65% | R$ 7.300 |
| ISS (média 5%) | R$ 200.000 × 5% | R$ 10.000 |
| Total | R$ 17.300 |
Modelo novo (IBS + CBS a 26,5%):
| Etapa | Cálculo | Valor |
|---|---|---|
| Débito sobre vendas | R$ 200.000 × 26,5% | R$ 53.000 |
| Crédito sobre insumos | R$ 20.000 × 26,5% | (R$ 5.300) |
| Total a recolher | R$ 47.700 |
O aumento é expressivo: de R$ 17.300 para R$ 47.700, uma alta de 176%. Essa é a realidade que exige atenção redobrada do setor de serviços, tema que aprofundamos em Reforma Tributária e Clínicas Médicas.
Atenção: parte desse novo imposto poderá ser repassada ao preço, e clientes que também sejam empresas se creditarão do valor pago. O impacto real depende de quem é o cliente final.
Simulação 2: Empresa de comércio (varejo)
O comércio tende a ter resultado mais equilibrado, porque compra mercadorias para revenda — e essas compras geram crédito integral.
Dados da empresa:
- Faturamento mensal: R$ 500.000
- Compra de mercadorias (que geram crédito): R$ 300.000 (60% do faturamento)
Modelo atual:
| Tributo | Base | Valor |
|---|---|---|
| PIS/Cofins (cumulativo) | R$ 500.000 × 3,65% | R$ 18.250 |
| ICMS (média 18%, já considerando créditos) | Valor agregado R$ 200.000 × 18% | R$ 36.000 |
| Total aproximado | R$ 54.250 |
Modelo novo (IBS + CBS a 26,5%):
| Etapa | Cálculo | Valor |
|---|---|---|
| Débito sobre vendas | R$ 500.000 × 26,5% | R$ 132.500 |
| Crédito sobre compras | R$ 300.000 × 26,5% | (R$ 79.500) |
| Total a recolher | R$ 53.000 |
Aqui o resultado é praticamente neutro: de R$ 54.250 para R$ 53.000, uma leve redução. O comércio com margens típicas e boa cadeia de créditos tende a atravessar a transição sem grandes sobressaltos.
Simulação 3: Indústria
A indústria costuma se beneficiar da não cumulatividade plena, especialmente quando tem alta proporção de insumos e matérias-primas creditáveis.
Dados da empresa:
- Faturamento mensal: R$ 1.000.000
- Insumos, matéria-prima e energia (geram crédito): R$ 600.000 (60%)
Modelo atual:
| Tributo | Base | Valor |
|---|---|---|
| PIS/Cofins (cumulativo) | R$ 1.000.000 × 3,65% | R$ 36.500 |
| ICMS (agregado R$ 400.000 × 18%) | R$ 72.000 | |
| IPI (estimado, varia por produto) | R$ 40.000 | |
| Total aproximado | R$ 148.500 |
Modelo novo (IBS + CBS a 26,5%):
| Etapa | Cálculo | Valor |
|---|---|---|
| Débito sobre vendas | R$ 1.000.000 × 26,5% | R$ 265.000 |
| Crédito sobre insumos | R$ 600.000 × 26,5% | (R$ 159.000) |
| Total a recolher | R$ 106.000 |
A indústria deste exemplo tem redução de 28,6% na carga tributária, de R$ 148.500 para R$ 106.000. Além disso, deixa de conviver com a complexidade do IPI e da substituição tributária do ICMS. Detalhamos esses efeitos setoriais em Reforma Tributária: impactos na indústria, comércio e serviços.
O padrão que emerge das simulações
Comparando os três cenários, um princípio fica evidente:
- Quanto mais insumos creditáveis a empresa tem, mais ela se beneficia (indústria).
- Quanto mais a empresa depende de mão de obra e tem poucos créditos, mais ela é onerada (serviços).
- O comércio, com sua cadeia de compras creditável, tende à neutralidade.
Essa lógica explica por que não existe uma resposta única para "a reforma é boa ou ruim". Para uma consultoria, pode significar quase triplicar a carga; para uma metalúrgica, uma economia relevante.
O que fazer diante desses números
As alíquotas usadas são estimativas de referência (26,5%), ainda sujeitas a calibração pelo governo, e a transição ocorre de forma gradual entre 2026 e 2033, como mostramos no Cronograma da Reforma Tributária. Isso significa que há tempo — e necessidade — de agir com antecedência.
Algumas medidas concretas para empresas do Lucro Presumido:
1. Mapear a estrutura de créditos
Identifique quais custos passarão a gerar crédito de IBS/CBS. Contratos com fornecedores, terceirização e a formalização de despesas ganham peso estratégico.
2. Reavaliar o regime tributário
Uma empresa de serviços muito onerada pode, dependendo da sua margem, encontrar no Lucro Real um cenário mais vantajoso. A escolha do regime deixará de ser rotineira e passará a exigir simulação anual.
3. Revisar precificação e contratos
Empresas cujos clientes são pessoas jurídicas podem repassar parte do imposto sem perder competitividade, já que o cliente se credita. Já quem vende para o consumidor final precisa absorver o impacto ou reajustar preços com cautela.
4. Planejar o fluxo de caixa da transição
Durante os anos de coexistência dos dois sistemas, haverá aumento temporário de complexidade. Provisionar recursos e organizar a contabilidade evita surpresas.
Cada empresa possui uma combinação única de faturamento, margem e estrutura de custos. As simulações acima são referências — o número real da sua empresa só aparece com um diagnóstico personalizado, exatamente como orientamos em Prepare sua empresa para o futuro tributário.
Se sua empresa está no Lucro Presumido e você quer entender o impacto exato da reforma no seu caixa, a equipe tributária do Trad & Cavalcanti Advogados realiza simulações setoriais personalizadas em todo o Brasil. Um diagnóstico feito agora, ainda na fase de transição, permite decisões estratégicas antes que os efeitos se consolidem.
Próximo episódio: Planejamento patrimonial na Reforma Tributária
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