Publicações
Direito Tributário

Reforma Tributária e empresas do Lucro Presumido: simulação de impacto real

Dr. Flávio Nogueira Cavalcanti
Dr. Flávio Nogueira Cavalcanti
20 de julho de 2026
7 min de leitura

O Lucro Presumido é o regime tributário de milhões de empresas brasileiras que faturam até R$ 78 milhões por ano. É o meio-termo entre o Simples Nacional e o Lucro Real: menos burocrático que este, mas sem os limites de faturamento e as alíquotas reduzidas daquele. Justamente por ocupar essa posição intermediária, essas empresas serão profundamente afetadas pela substituição do PIS, Cofins, ICMS e ISS pelo novo modelo de IBS e CBS.

A pergunta que todo empresário do Lucro Presumido faz é direta: vou pagar mais ou menos imposto depois de 2026? A resposta honesta é "depende do setor e da estrutura de custos da sua empresa". E é exatamente isso que as simulações a seguir demonstram, com números concretos.

Por que o Lucro Presumido merece atenção especial

No modelo atual, empresas do Lucro Presumido pagam PIS e Cofins pelo regime cumulativo — ou seja, com alíquota reduzida (3,65% no total), mas sem direito a créditos sobre suas compras. Além disso, recolhem ICMS (comércio e indústria) ou ISS (serviços) conforme a atividade.

Com a reforma, o IBS e a CBS funcionam pelo princípio da não cumulatividade plena: a empresa credita-se de praticamente tudo que compra e paga imposto apenas sobre o valor que agregou. A alíquota-padrão estimada gira em torno de 26,5%, bem superior à soma atual de PIS/Cofins cumulativos — mas com o crédito amplo, o resultado final varia enormemente entre setores.

Como explicamos em O que é a CBS e quais as diferenças em relação ao PIS e à Cofins, o segredo está em quanto de crédito cada empresa consegue aproveitar.

Simulação 1: Empresa de serviços (consultoria)

Empresas de serviços tendem a ser as mais impactadas negativamente, porque têm poucos insumos para gerar crédito — seu principal custo é a mão de obra, que não gera crédito de IBS/CBS.

Dados da empresa:

  • Faturamento mensal: R$ 200.000
  • Custos com insumos que geram crédito: R$ 20.000 (10% do faturamento)
  • Folha de pagamento: R$ 90.000 (não gera crédito)

Modelo atual:

Tributo Base Valor
PIS/Cofins (cumulativo) R$ 200.000 × 3,65% R$ 7.300
ISS (média 5%) R$ 200.000 × 5% R$ 10.000
Total R$ 17.300

Modelo novo (IBS + CBS a 26,5%):

Etapa Cálculo Valor
Débito sobre vendas R$ 200.000 × 26,5% R$ 53.000
Crédito sobre insumos R$ 20.000 × 26,5% (R$ 5.300)
Total a recolher R$ 47.700

O aumento é expressivo: de R$ 17.300 para R$ 47.700, uma alta de 176%. Essa é a realidade que exige atenção redobrada do setor de serviços, tema que aprofundamos em Reforma Tributária e Clínicas Médicas.

Atenção: parte desse novo imposto poderá ser repassada ao preço, e clientes que também sejam empresas se creditarão do valor pago. O impacto real depende de quem é o cliente final.

Simulação 2: Empresa de comércio (varejo)

O comércio tende a ter resultado mais equilibrado, porque compra mercadorias para revenda — e essas compras geram crédito integral.

Dados da empresa:

  • Faturamento mensal: R$ 500.000
  • Compra de mercadorias (que geram crédito): R$ 300.000 (60% do faturamento)

Modelo atual:

Tributo Base Valor
PIS/Cofins (cumulativo) R$ 500.000 × 3,65% R$ 18.250
ICMS (média 18%, já considerando créditos) Valor agregado R$ 200.000 × 18% R$ 36.000
Total aproximado R$ 54.250

Modelo novo (IBS + CBS a 26,5%):

Etapa Cálculo Valor
Débito sobre vendas R$ 500.000 × 26,5% R$ 132.500
Crédito sobre compras R$ 300.000 × 26,5% (R$ 79.500)
Total a recolher R$ 53.000

Aqui o resultado é praticamente neutro: de R$ 54.250 para R$ 53.000, uma leve redução. O comércio com margens típicas e boa cadeia de créditos tende a atravessar a transição sem grandes sobressaltos.

Simulação 3: Indústria

A indústria costuma se beneficiar da não cumulatividade plena, especialmente quando tem alta proporção de insumos e matérias-primas creditáveis.

Dados da empresa:

  • Faturamento mensal: R$ 1.000.000
  • Insumos, matéria-prima e energia (geram crédito): R$ 600.000 (60%)

Modelo atual:

Tributo Base Valor
PIS/Cofins (cumulativo) R$ 1.000.000 × 3,65% R$ 36.500
ICMS (agregado R$ 400.000 × 18%) R$ 72.000
IPI (estimado, varia por produto) R$ 40.000
Total aproximado R$ 148.500

Modelo novo (IBS + CBS a 26,5%):

Etapa Cálculo Valor
Débito sobre vendas R$ 1.000.000 × 26,5% R$ 265.000
Crédito sobre insumos R$ 600.000 × 26,5% (R$ 159.000)
Total a recolher R$ 106.000

A indústria deste exemplo tem redução de 28,6% na carga tributária, de R$ 148.500 para R$ 106.000. Além disso, deixa de conviver com a complexidade do IPI e da substituição tributária do ICMS. Detalhamos esses efeitos setoriais em Reforma Tributária: impactos na indústria, comércio e serviços.

O padrão que emerge das simulações

Comparando os três cenários, um princípio fica evidente:

  • Quanto mais insumos creditáveis a empresa tem, mais ela se beneficia (indústria).
  • Quanto mais a empresa depende de mão de obra e tem poucos créditos, mais ela é onerada (serviços).
  • O comércio, com sua cadeia de compras creditável, tende à neutralidade.

Essa lógica explica por que não existe uma resposta única para "a reforma é boa ou ruim". Para uma consultoria, pode significar quase triplicar a carga; para uma metalúrgica, uma economia relevante.

O que fazer diante desses números

As alíquotas usadas são estimativas de referência (26,5%), ainda sujeitas a calibração pelo governo, e a transição ocorre de forma gradual entre 2026 e 2033, como mostramos no Cronograma da Reforma Tributária. Isso significa que há tempo — e necessidade — de agir com antecedência.

Algumas medidas concretas para empresas do Lucro Presumido:

1. Mapear a estrutura de créditos

Identifique quais custos passarão a gerar crédito de IBS/CBS. Contratos com fornecedores, terceirização e a formalização de despesas ganham peso estratégico.

2. Reavaliar o regime tributário

Uma empresa de serviços muito onerada pode, dependendo da sua margem, encontrar no Lucro Real um cenário mais vantajoso. A escolha do regime deixará de ser rotineira e passará a exigir simulação anual.

3. Revisar precificação e contratos

Empresas cujos clientes são pessoas jurídicas podem repassar parte do imposto sem perder competitividade, já que o cliente se credita. Já quem vende para o consumidor final precisa absorver o impacto ou reajustar preços com cautela.

4. Planejar o fluxo de caixa da transição

Durante os anos de coexistência dos dois sistemas, haverá aumento temporário de complexidade. Provisionar recursos e organizar a contabilidade evita surpresas.

Cada empresa possui uma combinação única de faturamento, margem e estrutura de custos. As simulações acima são referências — o número real da sua empresa só aparece com um diagnóstico personalizado, exatamente como orientamos em Prepare sua empresa para o futuro tributário.


Se sua empresa está no Lucro Presumido e você quer entender o impacto exato da reforma no seu caixa, a equipe tributária do Trad & Cavalcanti Advogados realiza simulações setoriais personalizadas em todo o Brasil. Um diagnóstico feito agora, ainda na fase de transição, permite decisões estratégicas antes que os efeitos se consolidem.

Próximo episódio: Planejamento patrimonial na Reforma Tributária

Artigos relacionados da série

Precisa de assessoria?

Fale diretamente com um sócio

A primeira conversa é sem custo. Conte sua situação e entenda o que o direito pode fazer por você.