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Direito Médico

Testemunhas de Jeová e transfusão: o que mudou

Dra. Giovanna Trad
Dra. Giovanna Trad
30 de setembro de 2026
6 min de leitura

O que realmente mudou na orientação sobre transfusões

Durante décadas, a recusa de hemotransfusão foi um dos temas mais delicados na relação entre médicos e pacientes Testemunhas de Jeová. A orientação religiosa vedava, de forma quase absoluta, a transfusão de sangue total e de seus quatro componentes principais (glóbulos vermelhos, glóbulos brancos, plaquetas e plasma), gerando conflitos frequentes em situações de emergência.

Em 18 de setembro de 2026, a organização anunciou uma mudança importante: o uso dos quatro componentes principais do sangue (glóbulos vermelhos, glóbulos brancos, plaquetas e plasma) passou a ser uma questão de consciência individual de cada fiel, e não mais uma vedação institucional. A transfusão de sangue total continua sendo recusada pela denominação. A nova orientação também deixa a critério de cada fiel a doação de componentes para o tratamento de outra pessoa (veja a notícia).

Na prática, isso significa que o paciente Testemunha de Jeová pode ter hoje uma margem de decisão pessoal maior do que se presumia. Alguns aceitarão hemácias, plaquetas ou plasma; outros manterão a recusa a todos os componentes. O médico não deve presumir a resposta pela religião do paciente. O ponto central para o médico é: essa decisão continua sendo individual e precisa ser documentada caso a caso.

Por que isso importa juridicamente para o médico

A mudança não elimina o conflito clássico entre dois direitos fundamentais — mas altera a forma de conduzi-lo.

De um lado, está a autonomia do paciente, protegida pela Constituição (liberdade de crença e dignidade da pessoa humana) e pelo Código de Ética Médica, que reconhece o direito do paciente de recusar procedimentos. De outro, está o dever do médico de preservar a vida, especialmente diante de risco iminente de morte.

O Conselho Federal de Medicina, por meio da Resolução CFM nº 2.232/2019, reconhece a recusa terapêutica do paciente maior, capaz e devidamente esclarecido. Contudo, a mesma resolução preserva a autonomia do médico em situações de emergência e risco de morte iminente, quando a intervenção pode ser realizada.

O erro mais comum — e mais perigoso do ponto de vista jurídico — é o médico tomar decisões com base em suposições sobre o que "as Testemunhas de Jeová acreditam". Com a nova orientação, presumir a recusa total pode ser tão arriscado quanto ignorá-la.

Cenários práticos que todo médico deve conhecer

Paciente adulto, capaz e fora de risco iminente

Um paciente de 45 anos, lúcido, que recusa transfusão antes de uma cirurgia eletiva. Nesse caso, prevalece a autonomia. O médico deve:

  • Registrar detalhadamente a recusa e os esclarecimentos prestados;
  • Colher termo de consentimento (ou de recusa) informado, específico sobre transfusão e frações;
  • Avaliar a possibilidade de transferência ou de técnicas alternativas (recuperação intraoperatória de sangue, hemostáticos, eritropoetina).

Documentar quais frações o paciente aceita ou recusa tornou-se ainda mais relevante após a flexibilização, já que a resposta pode variar de pessoa para pessoa.

Emergência com risco iminente de morte

Um paciente dá entrada inconsciente, com hemorragia grave, e familiares informam que ele é Testemunha de Jeová. Aqui, sem manifestação de vontade válida e atual do próprio paciente, o médico está amparado para agir em favor da vida. A vontade de terceiros — mesmo familiares — não substitui a decisão pessoal e informada do paciente.

Se, porém, o paciente porta documento formal de recusa (diretiva antecipada de vontade), o cenário se torna mais complexo e exige análise cuidadosa, preferencialmente com apoio jurídico e do comitê de bioética da instituição.

Menores de idade

Este é o ponto mais sensível. Quando pais recusam transfusão em nome de filho menor cuja vida está em risco, os tribunais brasileiros têm reiteradamente autorizado o procedimento, priorizando o direito à vida da criança. O médico não deve deixar de agir por receio de conflito familiar — mas deve acionar imediatamente a instituição e, se possível, o Ministério Público ou a decisão judicial de plantão.

A documentação como proteção do médico

Nenhuma orientação religiosa, antiga ou nova, protege o médico. Quem protege o médico é o prontuário bem elaborado.

Diante da nova realidade, recomenda-se:

  • Termo de consentimento/recusa específico e atualizado, discriminando sangue total, componentes e frações;
  • Registro da capacidade civil e do estado de consciência do paciente no momento da decisão;
  • Descrição das alternativas oferecidas e da compreensão do paciente sobre os riscos, inclusive o de morte;
  • Anotação de testemunhas e, quando houver, do comitê de bioética;
  • Guarda das diretivas antecipadas de vontade, quando apresentadas.

Um prontuário genérico, com frases prontas, tende a ser frágil em uma eventual ação por responsabilidade civil ou em processo ético-disciplinar no CRM. A individualização é o que sustenta a conduta do médico perante o Judiciário.

Consequências de uma conduta mal documentada

Imagine um médico que, confiando na regra antiga, presume a recusa total e deixa de oferecer uma fração que o paciente teria aceitado. Se sobrevier dano, ele pode responder por não ter respeitado plenamente a autonomia do paciente. No sentido inverso, transfundir sem consentimento válido, fora de emergência real, pode configurar violação da vontade do paciente.

Em ambos os extremos, o médico se expõe a três frentes simultâneas: responsabilidade civil (indenização), responsabilidade ética (CRM/CFM) e, em casos extremos, responsabilidade penal. A melhor defesa é a conduta tecnicamente correta, precedida de diálogo e registrada com rigor.

Como agir a partir de agora

A flexibilização da orientação religiosa reforça uma lição antiga do Direito Médico: cada paciente é um caso. Não existe protocolo automático que substitua a conversa individualizada e a documentação adequada. O médico que pergunta, esclarece e registra está protegido; o que presume, se expõe.

Recomenda-se ainda que hospitais e clínicas revisem seus modelos de termo de consentimento e criem fluxos claros para situações de recusa terapêutica, envolvendo o corpo jurídico e o comitê de bioética.


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