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Direito Tributário

ITBI pago indevidamente: quando sua empresa tem direito à restituição do imposto

Dr. Flávio Nogueira Cavalcanti
Dr. Flávio Nogueira Cavalcanti
03 de agosto de 2026
6 min de leitura

O que mudou: uma decisão que reafirma a imunidade de ITBI na integralização de capital

Uma decisão recente da Justiça, noticiada pelo Consultor Jurídico em agosto de 2026, trouxe alívio a empresários que pagaram o Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis (ITBI) sem necessidade. No caso analisado, um juiz determinou a restituição do valor recolhido por uma empresa que tinha direito à imunidade tributária, mas acabou pagando o imposto por desconhecimento jurídico.

O ponto central da decisão é técnico, porém extremamente relevante na prática: a Constituição Federal, no artigo 156, § 2º, inciso I, prevê que a transmissão de imóveis para a formação (ou aumento) do capital social de uma empresa está imune ao ITBI. Existe, é verdade, uma ressalva no mesmo dispositivo — a imunidade não se aplica quando a atividade preponderante do adquirente for a compra e venda de imóveis, locação ou arrendamento mercantil.

Ocorre que essa ressalva não incide em todas as hipóteses. O entendimento consolidado, reforçado pela decisão comentada, é que a exigência de comprovar a atividade preponderante se aplica somente às transmissões decorrentes de fusão, incorporação, cisão ou extinção de pessoa jurídica. Já na hipótese específica de integralização de imóvel ao capital social, a imunidade é incondicionada — ou seja, independe da atividade que a empresa exerce.

Essa distinção tem origem no julgamento do Tema 796 pelo Supremo Tribunal Federal (RE 796.376), que separou claramente as duas situações. Muitos municípios, contudo, continuam a exigir o ITBI de forma indevida, e muitos contribuintes, sem orientação adequada, acabam pagando.

Quem é afetado por essa questão

A discussão interessa diretamente a três perfis de contribuintes que fazem parte do dia a dia do nosso escritório:

Empresários que reorganizam patrimônio

Quem constitui uma sociedade — especialmente holdings patrimoniais e familiares — frequentemente transfere imóveis próprios para o capital da empresa. Esse é justamente o momento em que a imunidade de ITBI se aplica de forma mais ampla. Se houve recolhimento do imposto nessa operação, há forte fundamento para pleitear a devolução.

Produtores rurais que estruturam a atividade

No agronegócio, é comum a integralização de fazendas, terras e imóveis rurais ao capital de sociedades constituídas para organizar a produção e a sucessão familiar. Esses produtores muitas vezes recolhem o ITBI por orientação equivocada ou por exigência municipal indevida, quando poderiam ter aproveitado a imunidade.

Sociedades em processo de reorganização

Empresas que passam por aumento de capital, ingresso de novos sócios com aporte de imóveis ou reestruturações societárias também podem ser afetadas — tanto para aproveitar a imunidade quanto para revisar operações passadas.

Vale um alerta importante: mesmo empresas cuja atividade principal envolve o setor imobiliário podem ter direito à imunidade na integralização de capital, já que, nessa hipótese específica, a ressalva da atividade preponderante não se aplica. Esse é um dos pontos mais mal compreendidos pelos contribuintes e, não raro, pelos próprios fiscos municipais.

Por que muitas empresas pagam o ITBI sem necessidade

Na prática, o recolhimento indevido acontece por alguns motivos recorrentes:

  • Exigência do cartório de registro de imóveis, que condiciona o registro da transferência à apresentação da guia de ITBI paga;
  • Interpretação restritiva do município, que aplica a ressalva da atividade preponderante mesmo em operações de integralização de capital;
  • Falta de assessoria jurídica no momento da constituição da empresa ou do aporte de bens;
  • Receio de questionar o fisco, levando o contribuinte a pagar para "não ter problema".

O resultado é que valores significativos deixam os cofres das empresas sem respaldo legal. Como o ITBI incide sobre o valor do imóvel, mesmo alíquotas de 2% a 3% podem representar quantias expressivas quando se trata de patrimônio de porte, como fazendas ou imóveis comerciais.

O que fazer agora: caminhos para recuperar o valor

A decisão noticiada reforça que o contribuinte que pagou o imposto indevidamente tem direito à restituição. Veja os passos práticos para avaliar e buscar esse direito.

1. Revise as operações de integralização já realizadas

O primeiro passo é levantar todas as transferências de imóveis feitas para o capital social da empresa nos últimos anos. É preciso verificar:

  • Se o imóvel foi efetivamente integralizado ao capital (e não vendido, doado ou transferido por outra causa);
  • Se houve recolhimento de ITBI nessa operação;
  • Qual foi o valor pago e a data do recolhimento.

2. Fique atento ao prazo de prescrição

O direito à restituição de tributo pago indevidamente prescreve, em regra, em cinco anos contados do pagamento. Operações mais antigas podem já estar fora do alcance da devolução, o que torna a revisão urgente para quem recolheu o imposto nos últimos anos.

3. Avalie o pedido administrativo ou judicial

A restituição pode ser buscada de duas formas:

  • Via administrativa, com pedido de restituição diretamente ao município. É o caminho menos custoso, mas nem sempre é acolhido, já que muitos municípios mantêm a interpretação equivocada;
  • Via judicial, quando o pedido administrativo é negado ou quando o município resiste à devolução. Como demonstra a decisão do Consultor Jurídico, o Judiciário tem reconhecido o direito do contribuinte, aplicando o entendimento do STF.

O ideal é que a estratégia seja definida com base na análise concreta do caso e da postura do município envolvido.

4. Estruture as próximas operações com segurança

Para quem ainda vai constituir uma holding, uma sociedade rural ou realizar aporte de imóveis, o planejamento prévio evita o recolhimento indevido. Com a documentação e a fundamentação corretas, é possível apresentar ao cartório e ao município o pedido de reconhecimento da imunidade antes do pagamento, prevenindo desembolsos desnecessários.

A importância do planejamento na integralização de imóveis

A integralização de bens ao capital social é uma das ferramentas mais eficientes para organizar patrimônio, planejar a sucessão familiar e proteger o patrimônio de empresários e produtores rurais. Quando conduzida com técnica, ela combina benefícios societários, sucessórios e tributários — incluindo a imunidade de ITBI.

O recado da decisão é claro: o desconhecimento não impede a restituição, mas o correto assessoramento evita o problema desde o início. Revisar operações passadas e planejar as futuras são medidas que preservam recursos e trazem segurança jurídica ao contribuinte.


Se a sua empresa realizou ou pretende realizar a integralização de imóveis ao capital social, vale a pena avaliar se há valores de ITBI recuperáveis e como estruturar as próximas operações com segurança. A equipe de Direito Tributário do Trad & Cavalcanti Advogados, que atua nessa área desde 1996, está à disposição para analisar seu caso e indicar o melhor caminho.

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