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Direito Médico

Justiça valida Resolução do CFM sobre sobreaviso médico: o que muda para médicos e instituições de saúde

Dr. Flávio Nogueira Cavalcanti
Dr. Flávio Nogueira Cavalcanti
16 de junho de 2026
6 min de leitura

TRF1 confirma: sobreaviso médico precisa ser remunerado

O Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) manteve válida a Resolução CFM nº 1.834/2008, que disciplina o regime de sobreaviso médico e fixa parâmetros éticos de remuneração da atividade profissional. A decisão, noticiada pelo Conselho Federal de Medicina em seu portal oficial, encerra — ao menos por ora — uma controvérsia que se arrastava há anos entre o Conselho e entidades representativas de hospitais e operadoras, que questionavam a competência do CFM para regular aspectos remuneratórios do trabalho médico.

A regra central da Resolução é clara: a disponibilidade médica em regime de sobreaviso deve ser remunerada. Não se trata de mera recomendação ética, mas de norma deontológica cujo descumprimento pode gerar consequências disciplinares para o médico que aceita atuar sem contraprestação e — agora com respaldo judicial reforçado — desdobramentos trabalhistas e cíveis para a instituição contratante.

O que diz a Resolução CFM nº 1.834/2008

A norma define sobreaviso como o período em que o médico permanece à disposição da instituição de saúde, ainda que fora dela, podendo ser convocado a qualquer momento para atendimento. Trata-se de uma restrição efetiva à liberdade do profissional: ele não pode se ausentar de área de cobertura, não pode consumir álcool, não pode assumir compromissos incompatíveis com o chamado imediato.

Justamente por essa restrição, a Resolução estabelece que:

  • O tempo de sobreaviso não se confunde com folga ou descanso;
  • A disponibilidade deve ser remunerada de forma específica, ainda que o médico não seja efetivamente acionado;
  • Quando convocado, o tempo de atendimento deve ser remunerado adicionalmente, como hora trabalhada;
  • O regime deve constar formalmente do contrato ou da escala, com critérios objetivos.

A norma também veda práticas como o "sobreaviso gratuito" ou a exigência de disponibilidade permanente sem contrapartida — situações ainda comuns em hospitais públicos, filantrópicos e até em redes privadas.

Por que a decisão do TRF1 importa

Entidades ligadas ao setor hospitalar haviam ajuizado ação questionando a competência do CFM para tratar de matéria remuneratória, sob o argumento de que a regulação salarial seria atribuição da Justiça do Trabalho ou de negociação coletiva, não do Conselho.

O TRF1 rejeitou esse argumento. Entendeu que o CFM atua dentro de sua competência ao estabelecer parâmetros éticos do exercício profissional, e que a exigência de remuneração pela disponibilidade não invade competência trabalhista — ao contrário, harmoniza-se com ela.

Na prática, a decisão consolida três pontos relevantes:

1. Sobreaviso sem pagamento configura infração ética

O médico que aceita rotina de sobreaviso gratuito está, em tese, sujeito a apuração ético-disciplinar pelo CRM. E a instituição que impõe essa prática expõe seus diretores técnicos — também médicos — ao mesmo risco.

2. Reforça o respaldo a ações trabalhistas

Embora o CFM não regule diretamente a relação de emprego, decisões da Justiça do Trabalho frequentemente utilizam a Resolução como parâmetro técnico para reconhecer o direito à remuneração de sobreaviso, especialmente em demandas movidas por médicos celetistas, cooperados ou contratados como pessoa jurídica.

3. Pressiona a revisão de contratos de prestação de serviços médicos

Hospitais, clínicas, operadoras e prefeituras que mantêm escalas de sobreaviso sem previsão remuneratória específica passam a operar em zona de risco jurídico ampliado — tanto na esfera ética quanto trabalhista e cível.

Quem é afetado na prática

A decisão impacta quatro grupos principais:

Médicos plantonistas e de sobreaviso — especialmente das áreas cirúrgicas, obstetrícia, anestesiologia, pediatria, ortopedia e UTI, onde o regime é mais frequente. Ganham respaldo institucional adicional para exigir contraprestação ou questionar escalas abusivas.

Hospitais e clínicas — públicos, privados e filantrópicos. Precisam revisar escalas, contratos e políticas internas. O argumento de "praxe do setor" ou "tradição local" não se sustenta mais frente à norma validada judicialmente.

Diretores técnicos e responsáveis técnicos médicos — respondem pessoalmente, perante o CRM, pela conformidade ética das práticas da instituição. A omissão diante de sobreaviso não remunerado pode gerar responsabilização individual.

Cooperativas médicas e operadoras de saúde — que estruturam redes credenciadas com regime de disponibilidade. Os contratos de credenciamento e as tabelas de honorários precisam contemplar a rubrica de sobreaviso de forma destacada.

O que médicos devem fazer agora

Para o profissional, três providências são recomendáveis:

  • Revisar o contrato vigente — verificar se há cláusula expressa sobre sobreaviso, valores, periodicidade e forma de pagamento. A ausência dessa previsão é, por si só, sinal de risco;
  • Documentar as escalas — guardar cópias das escalas mensais, registros de chamadas e comprovantes de atendimento durante o sobreaviso. Esses documentos são essenciais em eventual disputa;
  • Avaliar o modelo de contratação — médicos contratados como pessoa jurídica (PJ) ou via cooperativa também têm direito ao sobreaviso remunerado, mas a forma de cobrança e os reflexos tributários exigem análise específica.

O que instituições de saúde devem fazer agora

Para hospitais, clínicas e gestores, a recomendação é mais ampla:

  • Auditoria das escalas atuais — mapear todos os regimes de sobreaviso em vigor, identificar quais estão remunerados de forma específica e quais operam em zona cinzenta;
  • Revisão contratual — atualizar contratos de trabalho, prestação de serviços, credenciamento e cooperativismo médico para incluir cláusula expressa de remuneração de sobreaviso, com valores, periodicidade e forma de comprovação;
  • Política interna formal — formalizar regulamento sobre o regime, deveres do médico em sobreaviso, tempo máximo de resposta e critérios de acionamento. Isso protege a instituição em ações trabalhistas e em fiscalizações do CRM;
  • Provisionamento contábil — passivos relacionados a sobreaviso não pago podem ser substanciais. Recomenda-se análise atuarial para dimensionar o risco e, se for o caso, provisionar adequadamente;
  • Atenção à dedutibilidade fiscal — a correta classificação contábil dos valores pagos a título de sobreaviso impacta a apuração de IRPJ, CSLL e contribuições previdenciárias. Erros recorrentes nessa rubrica geram autuações.

Pontos sensíveis que ainda exigem cautela

A validação da Resolução não resolve todas as questões. Permanecem em aberto:

  • O valor adequado do sobreaviso — a norma não fixa percentual. Na Justiça do Trabalho, o parâmetro usual é 1/3 da hora normal (analogia ao art. 244, §2º da CLT), mas há decisões que reconhecem percentuais maiores em razão da especialidade médica;
  • Sobreaviso em contratação PJ — exige estruturação contratual cuidadosa para evitar discussão sobre vínculo empregatício;
  • Sobreaviso no SUS e em prefeituras — envolve aspectos de direito administrativo, licitação e teto remuneratório que merecem análise específica.

A consolidação jurisprudencial em torno da Resolução CFM 1.834/2008 é um divisor de águas para a gestão médica no Brasil. Profissionais ganham segurança para exigir o que sempre lhes foi devido; instituições recebem o recado de que a informalidade nessa área tem custo crescente.


A área de Direito Médico do Trad & Cavalcanti Advogados acompanha de perto as repercussões dessa decisão e assessora médicos, clínicas e hospitais na revisão de contratos, escalas e políticas internas de remuneração. Em caso de dúvida sobre como adequar sua estrutura ao novo cenário, nossa equipe está à disposição.

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