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Direito Tributário

Simples Nacional: a decisão de setembro que define 2027

Dr. Flávio Nogueira Cavalcanti
Dr. Flávio Nogueira Cavalcanti
20 de agosto de 2026
5 min de leitura

Uma janela de 30 dias que vale pelo ano inteiro

Todo mês de setembro, entre os dias 1º e 30, empresas optantes pelo Simples Nacional enfrentam uma decisão que costuma passar despercebida no meio da rotina operacional: permanecer no regime como ele sempre funcionou ou aderir ao modelo híbrido criado pela Reforma Tributária.

O ponto que raramente chega ao empresário com a clareza necessária é este: não decidir também é uma decisão. Quem deixa a janela passar sem análise fica automaticamente vinculado a um cenário que pode não ser o mais vantajoso — e essa escolha, ou a falta dela, produz efeitos por todo o exercício seguinte.

Com a transição da Reforma Tributária em curso, a decisão de setembro deixou de ser burocrática. Ela agora determina, na prática, quanto imposto sua empresa vai pagar em 2027.

O que muda com o modelo híbrido

A Reforma Tributária substitui tributos como PIS, Cofins, ICMS e ISS por dois novos: a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), federal, e o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), de estados e municípios. Ambos funcionam com lógica de não cumulatividade plena — ou seja, o tributo pago em cada etapa gera crédito para a etapa seguinte.

O Simples Nacional foi preservado, mas ganhou uma bifurcação. O optante passa a ter duas alternativas:

Simples Nacional tradicional

A empresa continua recolhendo tudo em guia única, com as alíquotas conhecidas. A simplicidade permanece, mas há um efeito colateral relevante: os créditos de CBS e IBS que a empresa transfere aos seus clientes são limitados. Para um comprador que está fora do Simples, isso significa menos crédito para abater — o que reduz a atratividade de comprar de um fornecedor optante.

Simples Nacional híbrido

A empresa permanece no Simples para a maioria dos tributos, mas passa a apurar CBS e IBS "por fora", pelo regime normal da não cumulatividade. Com isso, gera crédito integral para os clientes, mas assume uma carga e uma complexidade de apuração maiores.

Não existe opção universalmente melhor. Tudo depende da estrutura de cada negócio.

Por que a resposta muda de empresa para empresa

Duas empresas do mesmo setor, na mesma cidade, podem chegar a conclusões opostas. Os fatores que pesam na conta incluem:

  • Perfil dos clientes: se você vende para consumidor final, o crédito que transfere é irrelevante para ele — e o híbrido tende a não compensar. Se vende para outras empresas que aproveitam crédito, gerar crédito integral pode ser um diferencial competitivo decisivo.
  • Margem do negócio: margens apertadas sofrem mais com qualquer aumento de carga; margens folgadas absorvem melhor.
  • Fornecedores: quanto crédito você mesmo consegue tomar depende de quem te fornece e do regime deles.
  • Folha de pagamento: a composição de custos com pessoal afeta diretamente o resultado da simulação.

Um exemplo prático

Imagine uma empresa de tecnologia que presta serviços para grandes indústrias. Seus clientes são apuradores de IBS e CBS e valorizam o crédito integral. Ao migrar para o modelo híbrido, essa empresa se torna mais competitiva: o cliente passa a preferir contratá-la porque aproveita mais crédito. A migração, nesse caso, reduz o custo efetivo da relação e pode até justificar reajuste de preço.

Agora imagine a empresa vizinha, do mesmo setor de tecnologia, mas que atende pequenos comércios e consumidores finais. Esses clientes não aproveitam crédito. Migrar para o híbrido só traria mais complexidade e, provavelmente, mais carga — sem nenhum ganho competitivo. Para ela, permanecer no Simples tradicional é a escolha correta.

Mesmo setor, mesma janela, decisões opostas. Por isso a análise precisa partir dos números reais de cada empresa.

As consequências de escolher errado — ou não escolher

Os riscos de tratar setembro como mais um prazo burocrático são concretos:

  • Perda de competitividade: permanecer no tradicional quando seus clientes exigem crédito pode fazer você perder contratos para concorrentes que migraram.
  • Aumento de custo desnecessário: migrar para o híbrido sem que isso traga retorno significa assumir carga e complexidade maiores sem contrapartida.
  • Efeito travado por 12 meses: a opção vale para o exercício inteiro. Um erro em setembro não se corrige em janeiro — ele acompanha a empresa o ano todo.
  • Decisão por omissão: quem não age não fica neutro. Fica vinculado a um cenário que pode ser o pior para o seu caso.

Como transformar a escolha em conta, e não em aposta

O caminho responsável não é decidir por intuição nem repetir o que o concorrente fez. É simular. Na prática, isso significa:

  1. Levantar os números reais da empresa: faturamento, margem, composição de custos, folha e fornecedores.
  2. Mapear o perfil dos clientes e quanto crédito eles efetivamente aproveitam.
  3. Rodar os dois cenários — tradicional e híbrido — com base nas alíquotas e regras da transição.
  4. Comparar o resultado líquido de cada opção, considerando não só a carga tributária, mas o impacto competitivo.

Só depois desse trabalho a escolha de setembro deixa de ser um palpite e vira uma decisão fundamentada, sustentada por dados.

Dica para quem administra o negócio

Não espere a segunda quinzena de setembro para começar. A simulação exige coleta de dados e análise, e correr contra o prazo aumenta o risco de decidir mal. Reúna os números com antecedência e leve a discussão para quem entende tanto de tributação quanto do impacto de cada regime na sua cadeia.

O momento de agir é antes de setembro acabar

A janela de opção não perdoa atraso. Empresas que planejam com antecedência chegam a setembro com a decisão pronta e os números na mão; as que deixam para a última hora acabam vinculadas ao cenário que sobrou.

A Trad & Cavalcanti Advogados atua em Direito Tributário em todo o território nacional desde 1996, ajudando empresas do Simples Nacional a simular os dois cenários e transformar a escolha de setembro em uma conta clara. Se a sua empresa está no Simples, procure fazer essa análise antes que a janela se feche.

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