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Direito Tributário

Reforma tributária e o Simples Nacional: o que sua empresa ganha e o que perde

Dr. Flávio Nogueira Cavalcanti
Dr. Flávio Nogueira Cavalcanti
09 de agosto de 2026
7 min de leitura

Reforma tributária e o Simples Nacional: o que sua empresa ganha e o que perde

A reforma tributária não extinguiu o Simples Nacional, mas mudou a lógica que sustentava sua vantagem competitiva. Para muitas empresas, continuar no regime como sempre esteve pode significar perder clientes. Para outras, a mudança é irrelevante. A diferença está em um detalhe que poucos empresários entenderam: o crédito tributário que sua empresa gera para quem compra de você.

Este é o ponto de decisão que sua empresa precisará enfrentar até 2027, quando o novo sistema começa a valer de fato.

O que muda com a Simples Nacional reforma

O Simples continua existindo. A alíquota unificada, o recolhimento em guia única (DAS) e as faixas de faturamento permanecem. O que muda é a relação entre o Simples e os dois novos tributos criados pela reforma: o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços, estadual e municipal) e a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços, federal).

Esses dois tributos substituem ICMS, ISS, PIS e Cofins e funcionam sob a lógica do valor agregado: cada elo da cadeia recolhe imposto e gera crédito para o próximo. É aqui que o IBS CBS Simples cria um problema.

Quando uma empresa do Simples vende para outra empresa, ela repassa um crédito muito menor do que o valor que o comprador poderia aproveitar se comprasse de uma empresa do regime normal. O resultado: seu produto ou serviço fica efetivamente mais caro para o cliente empresarial, mesmo que seu preço de tabela seja o mesmo.

Por que o crédito reduzido é o centro do problema

No Simples tradicional, a empresa recolhe tudo dentro do DAS. Mas o IBS e a CBS embutidos nesse recolhimento são baixos e, portanto, geram crédito pequeno para o comprador.

Veja o efeito prático. Suponha que sua empresa venda um serviço por R$ 10.000 para um cliente do regime normal, e que a alíquota cheia de IBS+CBS seja de 26,5%:

  • Se você fosse do regime normal: o cliente tomaria crédito de aproximadamente R$ 2.650.
  • Sendo do Simples tradicional: o crédito repassado pode ficar em torno de R$ 300 a R$ 900, dependendo da faixa e do anexo.

A diferença — cerca de R$ 1.750 a R$ 2.350 — vira custo real para o seu cliente. Diante disso, ele tende a preferir um fornecedor do regime normal, que devolve crédito integral.

O regime híbrido: recolher IBS e CBS por fora

Para resolver esse gargalo, a reforma criou uma opção: a empresa do Simples pode escolher recolher o IBS e a CBS por fora do DAS, no chamado regime híbrido.

Na prática, funciona assim:

  • Você continua no Simples para os demais tributos (IRPJ, CSLL, CPP, e no que couber).
  • IBS e CBS passam a ser apurados e recolhidos pelo sistema não cumulativo, como no regime normal.
  • Com isso, sua empresa gera crédito integral para o cliente e também aproveita créditos das suas próprias compras e insumos.

O regime híbrido é justamente o mecanismo que devolve competitividade a quem vende para outras empresas. Mas ele tem custo: mais obrigações acessórias, apuração mais complexa e, dependendo do seu perfil de despesas, carga tributária efetiva maior.

Quando o híbrido compensa e quando não

A conta gira em torno de uma pergunta: quem é o seu cliente?

Se você vende majoritariamente para consumidor final (pessoa física) ou para outras empresas do Simples, o crédito não importa — ninguém do outro lado vai aproveitá-lo. Manter o Simples tradicional é quase sempre a melhor escolha.

Se você vende para empresas do regime normal que dependem do crédito, o híbrido pode ser o que mantém você no jogo.

Exemplos por tipo de cliente

A decisão fica clara quando olhamos por perfil de negócio.

Clínica médica que atende pessoas físicas

Uma clínica que fatura R$ 80.000/mês atendendo pacientes particulares (pessoa física) não tem por que migrar. O paciente não toma crédito de IBS/CBS. Aqui, o Simples tradicional preserva a menor carga e a simplicidade. Migrar para o híbrido só aumentaria obrigações sem benefício comercial.

Empresa de TI que presta serviço para grandes companhias

Uma software house com faturamento de R$ 250.000/mês, cujos clientes são grandes empresas do regime normal, vive de contratos B2B. Se ela mantiver o Simples tradicional, seus clientes perdem quase R$ 60.000/mês em crédito potencial — e vão pressionar por desconto ou trocar de fornecedor. Aqui o regime híbrido tende a compensar: ainda que a carga própria suba um pouco, a empresa deixa de ser preterida nas concorrências.

Indústria de embalagens que vende para o varejo

Uma pequena indústria que vende para redes de varejo enfrenta o pior cenário no Simples tradicional: cadeia longa, cliente que revende e depende de crédito em cada etapa. Para não ser cortada da cadeia de fornecimento, o híbrido — ou até a saída do Simples — precisa entrar na análise. Um exemplo: em uma venda mensal de R$ 400.000, a diferença de crédito não repassado pode chegar a R$ 90.000, valor que empurra o cliente para concorrentes maiores.

Comércio de rua com público misto

Uma loja que vende 70% para consumidor final e 30% para pequenos revendedores está numa zona cinzenta. Vale simular: se os 30% B2B representarem margem relevante e clientes que exigem crédito, o híbrido pode ser cogitado. Se forem clientes esporádicos, o Simples tradicional continua mais eficiente.

Como decidir na prática

A escolha entre Simples tradicional e regime híbrido não é ideológica — é aritmética. Três passos organizam a decisão:

1. Mapeie a composição da sua carteira

Separe seu faturamento entre:

  • Consumidor final (pessoa física) — crédito não importa.
  • Empresas do Simples — crédito não importa.
  • Empresas do regime normal — crédito importa e muito.

Quanto maior a fatia do terceiro grupo, mais o híbrido tende a fazer sentido.

2. Simule o crédito perdido

Calcule quanto crédito seus clientes deixam de aproveitar hoje. Esse número é o "desconto invisível" que você já concede — ou o motivo pelo qual pode estar perdendo negócios. Compare com o custo adicional de operar no híbrido.

3. Considere o custo de conformidade

O regime híbrido exige apuração de créditos, controle de notas e obrigações que o DAS não pedia. Para uma empresa enxuta sem estrutura contábil robusta, esse custo é real e deve entrar na conta.

O erro de esperar até 2027

A transição da reforma tributária é gradual entre 2026 e 2033, mas as decisões comerciais começam antes. Clientes empresariais já estão revisando suas cadeias de fornecedores considerando o crédito futuro. Empresas do Simples que não se posicionarem podem ser desligadas de contratos silenciosamente, sem sequer saber o motivo.

Antecipar a simulação e definir o regime com base em números — e não em suposições — é o que separa quem sai fortalecido de quem descobre o problema tarde demais.


A escolha entre manter o Simples tradicional ou aderir ao regime híbrido depende de uma análise que combina composição da carteira, margem e custo de conformidade. No Trad & Cavalcanti Advogados, atuamos há quase três décadas em Direito Tributário auxiliando empresários a tomar essa decisão com base em números concretos, não em achismos. Se sua empresa vende para outras empresas e você ainda não simulou o impacto do crédito na sua carteira, este é o momento de conversar com nossa equipe.

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