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Direito Médico

Defesa do médico em segunda instância: o que muda na estratégia de defesa

Dra. Giovanna Trad
Dra. Giovanna Trad
03 de agosto de 2026
7 min de leitura

A defesa de um médico não termina quando o juiz de primeira instância profere a sentença. Para muitos profissionais, é justamente na segunda instância que a batalha se define — e por uma razão simples: os tribunais julgam de forma diferente dos juízes singulares. Compreender essa diferença é o que separa uma apelação bem construída de uma peça genérica que apenas repete argumentos já rejeitados.

Por que a segunda instância julga diferente da primeira?

Na primeira instância, um único juiz acompanha o processo do início ao fim. Ele ouve as testemunhas, analisa a perícia, sente a dinâmica das audiências. Isso tem uma vantagem — a proximidade com a prova — mas também um risco: a impressão pessoal pode se sobrepor à técnica.

Na segunda instância, o cenário muda. O caso passa a ser julgado por um colegiado, normalmente três desembargadores (relator, revisor e vogal). Eles não presenciaram as audiências. Analisam o processo pelos autos, pelos documentos e, sobretudo, pela perícia técnica.

Essa distância técnica costuma favorecer defesas bem fundamentadas. Sem o peso emocional do relato do paciente presente na sala, os desembargadores tendem a valorizar mais os elementos objetivos: houve nexo causal comprovado? A conduta divergiu do padrão médico esperado? A perícia foi conclusiva ou apenas indicou possibilidades?

Em erro médico, onde a linha entre complicação previsível e erro é muitas vezes tênue, essa análise mais fria pode reverter condenações construídas sobre convicções subjetivas.

O que pode ser rediscutido em apelação?

Esta é uma das perguntas que mais recebemos: na apelação, é possível rediscutir tudo ou apenas questões jurídicas?

A resposta é que a apelação permite rediscutir tanto matéria de fato quanto matéria de direito — e essa amplitude é uma vantagem estratégica que muitos deixam de explorar.

Matéria de fato

Aqui se rediscute a valoração das provas. Por exemplo:

  • O juiz interpretou a perícia de forma equivocada?
  • Uma prova relevante foi ignorada na sentença?
  • O laudo pericial foi conclusivo quanto ao nexo causal ou o magistrado presumiu o que a perícia não afirmou?

Um caso concreto ilustra bem: em um processo de cirurgia com resultado adverso, a perícia afirmou que a complicação ocorreu em "cerca de 8% dos casos, independentemente da técnica empregada". O juiz, ainda assim, condenou o médico. Na apelação, ao destacar que a própria perícia reconhecia a complicação como estatisticamente previsível e não relacionada a erro, a defesa reposicionou toda a discussão fática — e obteve a reforma.

Matéria de direito

Já a matéria de direito envolve a aplicação incorreta da lei:

  • O juiz aplicou responsabilidade objetiva quando o caso exigia responsabilidade subjetiva (culpa)?
  • A obrigação era de meio, mas foi tratada como obrigação de resultado?
  • O valor da indenização foi fixado sem os parâmetros legais?

A distinção entre obrigação de meio e obrigação de resultado é decisiva. O médico, salvo em áreas específicas como a cirurgia plástica estética, assume obrigação de meio — o dever de empregar as melhores técnicas, não o de garantir a cura. Sentenças que ignoram isso são frequentemente reformadas.

Como elaborar as razões de apelação

As razões de apelação não são uma nova contestação. Repetir tudo o que já foi dito na defesa inicial é um erro comum e ineficaz. A peça precisa atacar cirurgicamente os pontos mais frágeis da sentença.

1. Identifique o ponto de ruptura da sentença

Toda condenação se apoia em uma premissa central. Pode ser um trecho isolado da perícia, uma testemunha, uma presunção. A razão de apelação deve concentrar fogo exatamente aí. Se a premissa cai, a condenação cai com ela.

2. Confronte a sentença com a prova técnica

Desembargadores valorizam quando a defesa demonstra, documento por documento, que a sentença contraria o laudo pericial. Frases como "a perícia à fl. X afirmou o oposto do que consta na fundamentação" têm enorme peso no colegiado.

3. Enfrente a questão do quantum indenizatório

Mesmo quando a reforma total é improvável, quase sempre há espaço para reduzir o valor da condenação. Um exemplo numérico: uma sentença fixou R$ 350.000,00 de danos morais em um caso de sequela parcial. Na apelação, com base em precedentes do próprio tribunal para lesões de gravidade similar, o valor foi reduzido para R$ 120.000,00 — uma economia de R$ 230.000,00 apenas pela adequação do parâmetro.

4. Use precedentes do próprio tribunal

Nada é mais persuasivo para um desembargador do que decisões anteriores da própria corte em casos parecidos. Isso transmite coerência e reduz o risco de decisões destoantes.

O que dizem as estatísticas de reversão

Os dados dos tribunais brasileiros mostram que a segunda instância é um terreno mais favorável ao médico do que se imagina.

Em análises de acórdãos sobre responsabilidade civil médica nos principais Tribunais de Justiça do país — incluindo São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e os tribunais das regiões Centro-Oeste e Nordeste —, observa-se um padrão consistente:

  • Reforma total (absolvição do médico): ocorre em uma parcela significativa dos casos em que a perícia era favorável ou inconclusiva quanto ao nexo causal.
  • Reforma parcial (redução do valor da condenação): é ainda mais frequente. A adequação do quantum indenizatório aos parâmetros do tribunal acontece na maioria dos recursos que a discutem.
  • Processos em que a defesa apenas repetiu a contestação, sem estratégia recursal própria, têm taxa de sucesso muito inferior.

O aprendizado prático é claro: a chance de reverter ou reduzir uma condenação cresce enormemente quando a apelação é construída como uma peça autônoma e técnica, e não como uma repetição.

O papel da sustentação oral

Muitos médicos desconhecem esse recurso. Em determinados julgamentos, o advogado pode fazer a sustentação oral — apresentando pessoalmente ao colegiado, em poucos minutos, os argumentos centrais da defesa.

Bem utilizada, ela humaniza o processo do lado do médico e permite direcionar a atenção dos desembargadores para o ponto mais forte da apelação antes do julgamento. Em casos de maior complexidade técnica, pode ser o diferencial entre a manutenção e a reforma da sentença.

O tempo também joga a favor da estratégia

A tramitação em segunda instância abre espaço para movimentos que não existiam antes: pareceres técnicos complementares, atualização de precedentes e, em alguns casos, a preparação já do caminho para os tribunais superiores. Cada fase exige um olhar estratégico próprio — o que reforça a importância de uma defesa pensada de forma escalonada, e não improvisada a cada instância.

A atuação em Direito Médico exige exatamente essa visão de conjunto. No Trad & Cavalcanti Advogados, que atua na área médica desde 2009, a defesa de profissionais de saúde é conduzida com essa lógica de médio e longo prazo, protegendo o patrimônio e a reputação do médico em todas as instâncias.


Restou alguma dúvida sobre a estratégia recursal no seu caso? Nossa equipe está à disposição para uma análise técnica individualizada do seu processo.

➡️ Próximo episódio: Episódio 12 — Tribunais superiores e o encerramento da defesa: quando e como levar o caso ao STJ

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