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Direito Médico

Compromisso médico sob pressão: o que o gesto de proteger um paciente durante um terremoto ensina sobre responsabilidade profissional

Dra. Giovanna Trad
Dra. Giovanna Trad
07 de agosto de 2026
6 min de leitura

As imagens do Hospital Geral de Kumamoto, no Japão, mostrando médicos que protegeram com o próprio corpo um paciente em cirurgia durante um terremoto de magnitude 7,1, tornaram-se símbolo de algo que vai além da técnica: o dever de cuidado que acompanha o exercício da medicina em qualquer circunstância.

Esse gesto, admirável do ponto de vista humano, também abre espaço para uma reflexão jurídica pertinente aos médicos brasileiros. Até onde vai a responsabilidade do profissional diante de situações imprevisíveis? Como o ordenamento jurídico trata o dever de cuidado, os limites da atuação e as consequências de decisões tomadas sob pressão extrema?

O dever de cuidado como pilar da atividade médica

No Brasil, a relação entre médico e paciente é regida por um conjunto de normas que impõem o chamado dever de cuidado. Ele está presente no Código de Ética Médica, no Código Civil e no Código de Defesa do Consumidor, quando aplicável.

Esse dever não se resume a aplicar corretamente uma técnica cirúrgica. Ele abrange a obrigação de zelar pela integridade do paciente durante todo o período em que este estiver sob os cuidados do profissional e da instituição de saúde.

A cena de Kumamoto ilustra esse princípio de forma extrema, mas ele se manifesta diariamente em situações menos dramáticas: a decisão de interromper um procedimento diante de uma intercorrência, a escolha do momento adequado para transferir um paciente, o cuidado com a documentação de cada etapa do atendimento.

Obrigação de meio, não de resultado

Um ponto central do Direito Médico brasileiro é a distinção entre obrigação de meio e obrigação de resultado. Na maioria das especialidades, o médico assume uma obrigação de meio: compromete-se a empregar todos os recursos técnicos disponíveis e a agir com diligência, mas não pode garantir um resultado específico.

Isso significa que, mesmo diante de um desfecho desfavorável, o profissional não será automaticamente responsabilizado. A análise recai sobre a conduta: houve negligência, imprudência ou imperícia? O médico agiu conforme os protocolos e o conhecimento técnico exigível naquela circunstância?

Especialidades como cirurgia plástica estética e alguns procedimentos odontológicos costumam ser tratados como obrigação de resultado pela jurisprudência, o que aumenta o rigor na avaliação.

Situações de emergência e o estado de necessidade

Um terremoto durante uma cirurgia é o exemplo máximo de imprevisibilidade. No Direito brasileiro, situações extremas encontram amparo em institutos como o estado de necessidade e a força maior.

O caso fortuito e a força maior, previstos no Código Civil, afastam a responsabilidade quando o dano decorre de evento inevitável e alheio à vontade do profissional. Um desastre natural que interrompe um procedimento cirúrgico se enquadra nessa categoria.

Exemplo prático

Imagine um cirurgião realizando um procedimento delicado quando ocorre uma queda abrupta no fornecimento de energia em razão de uma enchente que atinge a região. Mesmo com geradores, há instabilidade nos equipamentos. Se o profissional adota todas as medidas possíveis para estabilizar o paciente e minimizar riscos, eventual complicação decorrente exclusivamente do evento externo não configura falha médica.

O que se avalia é se o médico agiu com a diligência esperada diante do imprevisto — e não se o resultado foi perfeito.

A importância da documentação

Nenhum gesto heroico substitui o registro adequado. Em situações de emergência, a documentação torna-se ainda mais relevante para demonstrar a conduta adotada.

O prontuário médico é o principal instrumento de defesa do profissional. Ele deve registrar:

  • As condições clínicas do paciente antes, durante e após o atendimento
  • As decisões tomadas e suas justificativas técnicas
  • Eventuais intercorrências e as medidas adotadas para contorná-las
  • O consentimento informado, sempre que possível

Em um cenário de intercorrência grave, um prontuário bem elaborado é frequentemente a diferença entre a comprovação de uma conduta diligente e a exposição do médico a uma responsabilização indevida.

Responsabilidade individual e institucional

Quando o atendimento ocorre em ambiente hospitalar, a responsabilidade pode ser compartilhada entre o profissional e a instituição. O hospital responde por falhas estruturais, como equipamentos inadequados, ausência de protocolos de emergência ou deficiências na equipe de apoio.

Já o médico responde por sua conduta técnica individual. Essa separação é fundamental para que o profissional não seja responsabilizado por falhas que não estavam sob seu controle.

Dica para a rotina do médico

Vale conhecer os protocolos de emergência da instituição em que atua e verificar se sua atuação está devidamente respaldada por contratos e coberturas adequadas. Médicos que trabalham como pessoa jurídica ou em regime de plantão terceirizado devem observar com atenção como suas responsabilidades estão distribuídas nos instrumentos contratuais.

Proteção patrimonial e o exercício da medicina

O exercício da medicina envolve riscos jurídicos que podem alcançar o patrimônio pessoal do profissional. Ações de responsabilidade civil, processos éticos no Conselho Regional de Medicina e demandas trabalhistas fazem parte da realidade da profissão.

Por isso, a organização patrimonial e societária do médico merece atenção preventiva. Estruturar corretamente a atividade — seja por meio de pessoa jurídica, seja pela adequada separação entre patrimônio pessoal e profissional — é uma forma legítima de proteger os bens conquistados ao longo da carreira.

Não se trata de evitar responsabilidades, mas de organizar a atividade de modo que eventuais litígios não comprometam de forma desproporcional a vida financeira do profissional e de sua família.

O reconhecimento como reflexo da responsabilidade

O gesto dos médicos em Kumamoto representa o lado mais nobre da profissão: colocar o paciente em primeiro lugar, mesmo diante do risco pessoal. Esse compromisso, contudo, precisa vir acompanhado de segurança jurídica.

Quanto mais o médico atua sob pressão e assume decisões complexas, mais relevante se torna dispor de estruturas que reconheçam e protejam sua atuação — do prontuário bem elaborado aos contratos adequados, passando pela organização patrimonial.

O profissional que cuida de seus pacientes com dedicação merece também cuidar de sua própria segurança jurídica com o mesmo rigor.


A equipe do Trad & Cavalcanti Advogados atua em Direito Médico desde 2009, orientando profissionais de saúde em todo o Brasil na proteção de sua atuação profissional e de seu patrimônio. Se você deseja entender como estruturar sua atividade com segurança, nossa equipe está à disposição para uma análise personalizada.

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