A percepção do risco enquanto fator fundamental na prevenção de eventos adversos.
Segundo dados internacionais já disponíveis, é correto afirmar que a maioria dos eventos adversos ocorridos durante o processo de cuidado ao paciente advém de falha humana. Tais estudos não se contrapõem às constatações das quais estamos acostumados
Dr. Flávio Nogueira Cavalcanti
Segundo dados internacionais já disponíveis, é correto
afirmar que a maioria dos eventos adversos ocorridos durante o processo de
cuidado ao paciente advém de falha humana. Tais estudos não se contrapõem às
constatações das quais estamos acostumados a olhar com consternação na imprensa
escrita e falada. Pacientes admitidos em Instituições Hospitalares para
curar-se de uma enfermidade e que, lamentavelmente, saem de lá com patologias e
complicações não relacionadas a tal enfermidade, o que pode resultar no prolongamento
da internação, necessidade de intervenções diagnósticas e/ou cirúrgicas, lesão
temporária ou permanente, inclusive responder com a morte.
Não é exagero dizer que muitos destes eventos danosos
se configuram porque o profissional da saúde, incluindo-se neste campo,
médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, dentre outros, não dimensionam os perigos
que rondam sua atividade, cujo comemorativo afigura-se extremamente ameaçador,
uma vez que, ao ignorar a certeza de que determinado procedimento possa gerar consequências
nocivas ao seu assistido, o profissional passa a trabalhar de forma desatenta, desavisada
e imprudente. E justamente nesses momentos é que reside o perigo.
Nessa ordem de ideias, não há como se descurar da
assertiva de que a percepção do risco é uma premissa que deve ser seguida por
todos aqueles que lidam diariamente com a saúde e vida humana.
"Para a psicologia a percepção é o
processo ou resultado de se tornar consciente de objetos, relacionamentos e
eventos por meio dos sentidos, que inclui atividades como reconhecer, observar
e discriminar. Essas atividades permitem que os organismos se organizem e
interpretem os estímulos recebidos em conhecimento significativo". (APA,
2010, p. 695).
Assim, não são todos os indivíduos que
conseguem extrair das situações elementos objetivos da relidade, ou seja, nem
todos percebem a verdade presente no objeto. Isso ocorre por diversos fatores.
Mas o que se deve ter em mente é que a deturpação da realidade feita pelo
observador tem o condão de modificar o fenômeno.
Destarte, a boa percepção se faz valiosa em quase
todos os atos que praticamos no decorrer de nossa vivência, como no trânsito,
por exemplo. A maioria dos condutores
sabe da existência de regras que devem ser cumpridas. Todavia, não são todos
que as obedecem. Isso porque cada um tem uma percepção diferente dos perigos
inerentes à própria arte de dirigir. Aqueles que temem o perigo dirigem
preventivamente, no intuito de coibir um acidente. Já aquela corrente
destemida, que dá de ombros ao perigo, dirige desprovida de cautela e
prudência.
Com efeito, uns ou outros se furtam de seu dever de
dirigir dentro dos limites de velocidade crentes de que isso não acarretará em
nenhum prejuízo. Geralmente pensam “Ah, não vai acontecer nada” ou “É só hoje”
ou “É o último dia”. E os acidentes
ocorrem, na maior parte das situações, nessas condições de desatino, pressa, imprudência
e desatenção.
Não se está a negar que os infortúnios nunca
ocorrerão. Isto seria uma façanha sobre-humana. No entanto, os seus
desdobramentos podem ter uma repercussão menos nociva, a depender do temor e
discernimento de cada um frente ao risco. Ora, se eu tenho consciência de que o
perigo existe, eu posso me valer de mecanismos para diminuí-lo, como utilizar
capacete, não ultrapassar de forma inadequada, não dirigir com excesso de velocidade,
triplicar os cuidados em dia chuvoso, dentre outras medidas.
Desse modo, o indivíduo que se comporta exemplarmente
frente ao risco tem mais chances de salvaguardar a sua integridade física e a
de terceiros. O uso do capacete e a velocidade controlada, por exemplo, são
instrumentos que previnem um traumatismo craniano.
Pois bem. É
essa noção de perigo que o profissional da saúde deve ter em mente quando
presta seus serviços. Ter consciência de que o risco é inerente ao trabalho que
desenvolve para, a partir daí, elaborar medidas com vistas a preveni-lo,
eliminá-lo ou minimizá-lo. Para iniciar o processo preventivo, primeiramente se
faz necessário identificar quais os atos/procedimentos/condições que são mais
vulneráveis à configuração de um evento adverso. Depois, averiguar- mediante
estudo minucioso- o fato gerador de aludidos riscos. Ao final, traçar um
programa com a finalidade de solucionar o problema.
Para melhor compreender o raciocínio exposto acima,
imaginem os riscos- pelos quais estão suscetíveis os idosos, as crianças e
aqueles que estão sob efeito de droga- de sofrer uma queda no ambiente
hospitalar. Assim, compreendendo que essas condições induzem à ocorrência desse
evento adverso, os responsáveis devem implementar como rotina rígida e
continuada o trabalho preventivo. Mas como? Não deixar a maca sem grades de
proteção em hipótese alguma, redobrar os cuidados da equipe de enfermagem, pedir
a presença constante de um acompanhante, acompanhar o paciente no banho, dentre
outras ferramentas.
Nessa linha de raciocínio, não é errado admitir que a
queda é um evento adverso fácil de ser evitado. Para tanto, as medidas
preventivas supra descritas devem ser adotadas, o que evitará que o paciente
saia do Hospital com uma patologia alheia a sua doença de base. A noção de
perigo e a cautela do bom profissional coíbem que o assistido venha a óbito ou
sofra intervenções cirúrgicas e terapêuticas desnecessárias.
Já o médico
e/ou Hospital desprovidos da noção do perigo e de uma cultura responsável,
certamente não exercerão nenhuma atenção aos pacientes de risco. E são nesses
momentos de vulnerabilidade, de indiferença e de menosprezo, que ocorrem as
quedas. E o paciente que padece de simples depressão poderá sair do Hospital imediatamente
para o túmulo.
De tal arte, conclui-se, à toda evidência, que a
percepção do risco por parte daqueles que cuidam da saúde é um elemento capaz
de manter ou alterar o rumo e o final da história de cada paciente internado,
que pode ser trágico ou feliz, a depender da aceitação e da dimensão que cada
profissional atribuir ao perigo. Afirmo, sem embargo de dúvida, que o
perceptivo tende a trilhar no caminho da prevenção e, como corolário, insere o
seu paciente no ambiente em que merece e deve ficar, qual seja, em uma Casa de
Saúde que lhe assegure segurança, com a garantia de que não terá nenhum
prejuízo estranho à patologia que motivou a sua internação.
**Giovanna Trad, **advogada com experiência em
Direito Médico e da Saúde.
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