03/
Feb
Por que erradicar os mosquitos da Terra para combater doenças não é boa ideia

O zika vírus tem se espalhado por dezenas de países e, de umas semanas para cá, trilha um caminho de tragédias e medo ao redor do mundo. No sábado, oficiais da Organização Mundial de Saúde anunciaram que temem que o surto seja uma ameaça maior à saúde global que o Ebola.

 

Cientistas e políticos estão em busca de soluções e, como muitas vezes ocorre em meio a surtos de doença ligada a mosquitos, alguns trouxeram à tona uma ideia antiga: erradicar os mosquitos do planeta. Todos eles, diga-se. Em artigo publicado no site Slate na sexta, o colunista Daniel Engber argumenta que a eliminação total de mosquitos é nossa melhor opção para combater doenças infecciosas.

 

Mas como seria um mundo sem mosquitos? Seria um planeta em que as doenças infecciosas que afligem milhões sumiriam por completo e para sempre? Provavelmente, não. A biologia parece concordar que a erradicação de uma espécie por inteiro poderia vir acompanhada de uma série de consequências imprevistas. A médio e longo prazo, os iproblemas poderiam ser bem piores do que os que temos agora.

 

A necessidade de lidar com o gigantesco problema das doenças que têm mosquitos como vetores nunca foi tão urgente. Em 2014, Bill Gates citou o mosquito como oanimal mais mortal do mundo. Ele está certo. Doenças ligadas a esses insetos matam cerca de 725.000 pessoas ao ano. Somente a malária mata 6 milhões de pessoas a cada década. Temos também a dengue, a febre do Nilo, chikungunya e uma série de outras doenças mortais, todas trazidas por diminutos mosquitos sanguessugas.

 

Faz sentido então que, diante da morte de seres humanos em escala inimaginável e sobretudo em algumas das populações mais pobres da Terra, haja a intenção de destruir o agente causador de tudo.

 

Engber vota por uma “solução nuclear”. O colunista sugere um genocídio de insetos muito mais agressivo que a estratégia atual de ações menores de controle chamadaGestão Integrada de Mosquitos. Hoje, em lugares onde ocorrem surtos de doenças transmitidas por mosquitos, a pulverização de produtos químicos e aterro de regiões pantanosas são ações rotineiras. Mas, em alguns locais do mundo, estão sendo testadas uma série de inovações científicas que podem eliminar grandes populações de insetos de uma só vez. Engber propõe dar uma bombada nesses esforços.

 

De acordo com Cameron Webb, especialista em mosquitos e doenças infecciosas na Universidade de Sydney, na Austrália, a tecnologia de erradicação de mosquitos para atingir espécies danosas é uma boa opção – mas não pode ser a única solução.

 

“Temos que ter cuidado em não depositar todas nossas esperanças em uma só técnica”, disse. “Soluções de alta tecnologia devem estar em evidência, mas não devem erodir as bases dos projetos tradicionais.” Incluímos aí educação comunitária, melhorias na saúde, melhores diagnósticos de doenças, redução dos habitats de mosquito no lar, repelentes de inseto, redes para prevenção, vacinas e uso parcimonioso de inseticidas.

 

Por mais que seja uma opção atraente, há diversos motivos pelos quais matar os mosquitos do mundo é uma péssima ideia para as pessoas e ecossistemas. Primeiro, disse Webb, há milhares de espécies de mosquito pelo planeta – e são pucas as que afetam os seres humanos. “Surtos causados pelo zika vírus, dengue, chikungunya e febre amarela são espalhados por poucas espécies”, disse Webb ao Motherboard, comentando ainda que o mosquito que mais causa doenças é o Aedes aegypti.

 

“Talvez seja a hora de levarmos em consideração erradicar só as espécies em locais habitados por humanos”, afirmou Webb. “Não precisamos erradicar todos para reduzir drasticamente a carga de doenças advindas de mosquitos globalmente.”

 

Como o próprio Engber admite, “ninguém sabe ao certo” quais as implicações ecológicas estariam envolvidas nessa empreitada anti-mosquitos. Por um lado, há centenas de espécies ecológica e economicamente importantes de pássaros, morcegos e peixes que se alimentam de mosquitos. Por outro, um artigo publicado na Nature em 2010 revelou que não há espécie que dependa unicamente de mosquitos – um fato que Engber argumenta para presumir que, sem os mosquitos, outras espécies não sofreriam.

 

“Não encontramos nenhum animal que dependa de mosquitos como essencial na dieta, mas esses são usados como lanches abundantemente”, disse Webb. “Tenho poucas dúvidas de que esses mosquitos tenham papel importante em termos ecológicos e que sua erradicação poderia levar a outros efeitos.”

Em 2014, o entomologista especializado em saúde pública Grayson Brown disse ao site de ciência io9 que os mosquitos poderiam ser eliminados, sim. Mas fez uma ressalva. “O dano ecológico envolvido faria com que a erradicação não valesse a pena a não ser que houvesse uma emergência séria envolvendo a saúde pública”", falou. É impossível calcular o número total da biomassa de mosquitos, mas uma estimativa sugere que, só no Alasca, chega a 43 milhões de quilos. Com um número tão absurdo, é inegável que haveria consequências de longo prazo.

Vale ressaltar que a ecologia não é uma via de mão-dupla. Os ecossistemas são como uma série complexa de conexões. Um organismo só pode afetar vários outros de diversas formas desconhecidas e imprevistas. No caso da saúde pública, erradicar o vetor de uma doença nem sempre significa erradicar a doença em si.

 

Quando em 2014 questionaram David Quammen, cientista e escritor que lançou um livro sobre infecções animais e a próxima grande pandemia, ele respondeu que a perda de mosquitos poderia deixar o nicho ecológico aberto para outros insetos daninhos, como as moscas varejeiras, que também carregam doenças fatais consigo.

 

“Quando você fala sobre tentar prever as consequências de se erradicar completamente qualquer espécie, não dá pra saber”, afirmou. Seria, com devida licença poética, jogar uma bomba no escuro.

 

Fonte: Melissa Cronin - VICE